terça-feira, 30 de julho de 2019

A Realeza centrada em Cristo

Após a queda de Roma surgiram os Novos Reinos Bárbaros ao longo da Europa que tentaram restaurar certas características romanas (títulos, estruturas burocráticas), porem foi no Reino Franco, por exemplo, que os reis e depois imperadores passariam a ter status sacro, já que seriam por meio deles que se manifestaria o poder de Deus, ou seja, uma personae mixtae (ser espiritual e secular). 
Portanto o Rei passaria a ter uma eminente importância já que ele tinha que fazer jus ao poder que lhe foi outorgado por Deus. Assim ele garantia coesão à cristandade ocidental e, a aristocracia e aos seus súditos em torno de sua figura sacra para a propagação da vontade de Cristo, ou seja, dos escritos de seus evangelhos. Sua autoridade real seria legitimada por meio da unção e da consagração a partir do momento de coroação onde haveria união entre o rei terrestre e o Rei Celestial em que o espirito de Deus incorpora no Rei sendo seu poder a partir daquele momento a manifestação da vontade divina.
Esses ritos de coroação remontavam o período bíblico quando os reis dos judeus eram ungidos pelos religiosos para que sua autoridade fosse legitimada por Deus, onde o poder real guiaria o povo escolhido para edificar um reino que realizasse a vontade divina. Também retorna ao período da Antiguidade Clássica em que os gregos e romanos consagravam as figuras eminentes de sua época. Essa divinização ocorria por meio de apoteose e consecratio romana.
Havia consonância nestes ritos em que eles assumiam uma deificação-que excedia os demais homens- sendo, portanto manifestação divina na terra.
As relações entre a realeza e a Igreja foram marcadas por períodos de oscilações em que certos momentos a autoridade real foi respeitada pelo clero consolidando uma harmonia entre os poderes seculares e espirituais, principalmente nas coroações e nas pinturas retratando a aliança divina entre o rei e o Deus ou Jesus Cristo.
Mas essas relações foram arranhadas em alguns períodos como na Questão de Investidura onde o rei tentou transgredir o poder clerical interferindo nos assuntos internos referentes à Igreja, provocando conflitos e pensamentos de aversão ao Papa, onde o clérigo Anônimo Normando afirma que o rei por ser uma personae mixtae tinha um poder superior na face da terra, maior do que o do próprio Papa.
Podemos concluir que a figura real e imperial do Ocidente Medieval teve uma grande importância já que se alcançou a estabilidade politica e social que garantiu o desenvolvimento da civilização da Europa Ocidental sob a moral prescrita pela Cristandade, onde o sacro e o secular legitimaram a realeza centrada em Cristo e a unidade do mundo cristão por séculos.

Referências Bibliográficas:


KANTOROWICZ, Ernest H. Os Dois Corpos do Rei: um estudo sobre teologia medieval. São Paulo. Cia. das letras: 1998. p. 48 - 91.

BLOCH, Marc. Os Reis Taumaturgos. São Paulo: Cia das letras, 1998, p. 68 - 87




Pacto Germânico-Soviético de Não Agressão

O material que analisaremos será uma fonte primária visual de acordo com o Anexo A, ou seja, uma fotografia feita em um dos maiores acontecimentos ocorrida durante o período Entreguerras (1918-1939) e na História Diplomática que foi o tratado de não agressão assinado no dia em 23 de Agosto em 1939, entre Viatcheslav Mikhailovitch Molotov e Ulrich Friedrich Wilhelm Joachim Von Ribbentrop, representantes dos assuntos e relações estrangeiras dos respectivos governos soviético e alemão.
A imagem foi produzida durante as assinaturas do tratado na qual o representante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) assina na linha firmando o compromisso de Moscou, capital soviética, de não iniciar as iniciativas bélicas e, portanto de cumprir fielmente os termos do acordo.
Quando observamos a imagem à pergunta que vem cabeça é: qual a razão de dois chefes de governos distintos, ideologicamente opostos assinarem um pacto de não agressão sendo que nos seus governos essas ideologias distintas eram proibidas e sendo comum na União Soviética denominar de “Fascista” ou até “Nazistas” vítimas de expurgos e na própria Alemanha Nacional Socialista haver perseguição aos Comunistas?
Poderíamos fazer como George Duby e tentarmos em nosso imaginário entrar em comunicação com esses guerreiros, no caso daquele Agosto, chefes supremos das defesas destas nações “esperando aproximar [...], pelo menos de alguns deles, para poder distinguir um pouco os laços que os uniam uns aos outros e as relações que acreditavam manter com o mundo” (DUBY, 1992, p.19), porém não temos mínimas possiblidades de votarmos praticamente oitenta anos e perguntar para o líder soviético, Josef Stalin e ao seu representante e também ao Sr. Von Ribbentrop as razões de assinarem um acordo que deixou perplexo tanto os apaixonados “Antifascistas” de mundo todo que lutaram nas Brigadas Vermelhas contra os ditos Tradicionalistas, Nacionalistas e Anticomunistas na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e os próprios Comunistas que combateram os Nazistas nas ruas alemãs antes do poder absoluto de Adolf Hitler, tanto os “Conservadores” que julgavam o Nacional Socialismo como mal menor na luta contra as ações da Komintern, a Internacional Comunista, no solo europeu.
O que devemos fazer neste caso é consultarmos a fonte e retirar dela o essencial dela por se tratar de um material “bruto” em analogia aos materiais que nos utilizamos até o seu máximo para construir uma análise histórica correta na mesma precisão que se edifica um prédio ou uma casa como relata Duby (DUBY, 1992) nas suas experiências epistemológicas.
Para analisar a fonte devemos levar em consideração o que Duby recebera de Lucien Febvre ([20-] apud DUBY, 1992) que em cada época tem sua visão de mundo, que as percepções no espaço e construções de conceitos alteram com tempo e que ao estudioso é recomendado que não se deixasse levar a respeito dos atuais arquétipos de mundo num iminente perigo de não compreender nada referente ao passado. 
Na nossa fonte primária visual, conforme o Anexo A, ao montar esse quebra-cabeça da questão levantada acima, como recomendara George Duby, notamos os nomes dos principais personagens e seu lugar durante a assinatura do acordo na qual Molotov estava assinando o tratado tendo atrás de ti o representante de Berlin, Von Ribbentrop e nada menos importante que Josef Stalin, governante da União Soviético, além de oficiais das ambas as armas dos dois países em que as expressões evidenciavam alívio mesclado com tensão por parte do oficial soviético juntamente com satisfação por parte do chefe supremo da URSS e no rosto dos alemães um olhar de frieza mesclado com tensão por parte do “chanceler” nazista e de outro um olhar de desdém.
De um lado foi uma reação de alívio por parte de Moscou já que afastava provisoriamente um conflito com a Alemanha, visto com temor em virtude do “sucateamento” do Exército Vermelho e da superioridade bélica dos alemães, além de consolidar a transformação econômica dos coletivizações de terras e do crescimento industrial por meio dos famosos Planos Quinquienais.
Graças a esses planos a URSS se tornou pouco mais de uma década a potência econômica ao lado dos EUA e países ocidentais, porém com um custo social grave com muitas mortes devido à fome provocada pela modificação radical da estrutura agrária e das repressões em razão da resistência por parte dos camponeses humildes até os mais abastados, no caso os Kulaks, em aderir os Kolkozes entregando suas terras e, cedendo sua produção e seus instrumentos de trabalho.
A forma conduzida na modernização soviética gerou resistências no partido Comunista e houve como reação expurgos contra a velha guarda bolchevique com acusações de serem espiões e sabotadores a serviço dos “Capitalistas”, “Trotskistas”, “Fascistas”, “Nazistas” ou todas essas atribuições.
Isso se estendeu ao Exército Vermelho em razão de supostas denúncias do chefe do Estado Maior, Mikhail Tukhachevsky, de estar em complô com a Alemanha para derrubar o governo e instalar um regime de inspiração Nazifascista.
Com isso muitos oficiais foram condenados à morte por fazerem, segundo os inquéritos, atos conspiratórios de inspiração “bonapartista” junto às taxações acima o que levou o exército a carência de bons estrategistas e comandantes, conforme visto na Guerra de Inverno (1939-1940) com a Finlândia cujo conflito foi vencido com muitas dificuldades.
A satisfação era ter a possibilidade de adquirir novos territórios algo concretizado na conquista de terras finlandesas e no início da Segunda Guerra Mundial de territórios de países bálticos, além do Leste Polonês sem ter a intromissão de Hitler.
Para os alemães o acordo foi espetacular já que Alemanha Nazista Bélica sob um governo Totalitário (a partir de 1933 com a ascensão de Hitler fechou partidos, associações e sindicatos, silenciando os opositores até os matando seus antigos aliados e comandantes das antigas SA, as famosas tropas de assalto) alcançou grande crescimento na sua produção industrial, principalmente a Indústria Bélica, junto com medidas econômicas de gerações de empregos com obras de infraestrutura e aliança com as elites econômicas.
O apoio dos oficiais foi fundamental para a consolidação do poder que sendo assim poderia se ater para os demais territórios europeus objetivando dominá-los como a Polônia.  
Para que essas duas grandes potências pudessem ter uma grande produtividade o que as levou protagonizar esse importante acordo diplomático foi necessário, acrescentado às perseguições e eliminações da oposição, um imenso sentimento de pertencimento comum a uma mesma pátria e uma mesma cultura sendo irrelevantes as variações regionais alemãs e soviéticas que segundo Tânia Regina de Luca ao corroborar com Eric J. Hobsbawm e com Terence Ranger (1984,1988 apud LUCA, 2012) de que o processo de identidade nacional foi feito para reverenciar um passado comum, uma história nacional aprendida e imposta nas escolas para criar e forjar tradições únicas com elos poderosos entre os compatriotas nos diversos contextos sociais.
Com esses acontecimentos envolvendo os signatários vemos que há situações em que o pragmatismo fala mais alto em uma determinada temporalidade ao depararmos com a fonte e possamos assim parafraseando Duby (DUBY, 1993) que ao caminharmos nos campos e bosques dos antecedentes históricos encontramos algo concreto, digno de um bom ponto de vista para nos ancorar no real, ou seja, nas motivações de assinarem um acordo de não agressão e divisão da Polônia em duas.
A imagem tem uma importância histórica por registrar o ato histórico captando as reações e expressões dos que fazem a história levando a questionar a razão de o fenômeno fotografado nos fazer entender que por bastidores daquela foto há uma geopolítica voltada para manter e aperfeiçoar o desenvolvimento de dois sistemas envolvendo toda uma cadeia produtiva, dominação política e fortalecimento ideológico na vida pública e privada dos respectivos cidadãos e renegados em ambas as nações.
Sendo assim Tânia Regina ao citar Lucien Febvre (1998 apud LUCA, 2012; TÉTART, 2000) de que a história se faz com documentos escritos também se faz com inexistência de fontes escritas na qual o historiador fabrica o seu mel e faz a sua fonte, mesmo desprovida de palavras possa orientar a busca por repostas e a fonte visual passa ser um importante objeto de estudo conforme explicitamos acima.
Assim não nos limitamos a analisar somente as fontes escritas como defendera Fustel de Coulanges, mas continuar fazendo o que havíamos feito, segundo Tânia Regina, que é analisar a história como um todo partindo de um micro espaço histórica, no caso da fotografia batida na assinatura do Pacto Germânico-Soviético, para partimos para uma história total analisando todos os elementos presente nas estruturas destes Estados para então entendermos melhor a razão do acontecimento presente na fonte analisada. 







segunda-feira, 29 de julho de 2019

Os bárbaros na idade média

Queda do Império Romano

Muito se fala sobre como os bárbaros destruíram a cultura clássica e ocasionaram com as invasões ao Império Romano, seu enfraquecimento e consequente ruptura até o momento que conhecemos como Idade Média. Diz – se dos povos bárbaros, muitos dos estudiosos fascinados pela cultura greco-romana, que ocasionaram o declínio nessa cultura, mas seria justo dizer que não houve bárbaros que ajudaram a manter as tradições clássicas? Será mesmo que eles não contribuíram em absolutamente nada? Houve somente bárbaros incultos, violentos e sedentos de sangue e poder que se estabeleceram nas regiões dominadas por romanos?
Geralmente, historiadores gostavam de se referir aos bárbaros como os únicos responsáveis pela queda do Império, esquecendo muitas vezes que ele já andava enfraquecido por tantas crises internas, disputas por poder, traições, e tantos acontecimentos que, fatalmente, independentemente se houvesse ou não tantas invasões, cedo ou tarde, esse sistema acabaria por se extinguir.
Analisaremos dois fragmentos historiográficos que narram duas situações distintas nesse período em que os povos migravam de um lugar a outro para entendermos a função dos bárbaros na formação dos países que conhecemos hoje e também entender o pensamento e visão de bárbaros que possuíam cultura e conseguiram retratar momentos importantes para a nossa compreensão da História atualmente. O primeiro fragmento é “A fixação dos anglos e dos saxões na Bretanha.” e o segundo fala sobre “A queda do Império Romano do Ocidente” ambos são textos escritos por pessoas de origem bárbara e com a análise mais atenta desses fragmentos poderemos desconstruir um pouco de algumas ideias de que eles eram apenas destruidores e incultos.
Nos primeiro fragmento a ideia principal é da fixação dos anglos e saxões na Bretanha. O texto narra a batalha entre saxões e bretões, na qual aqueles obtiveram a vitória sobre os bretões. Com isso, enviaram notícias da fertilidade da terra e a postura inerte dos bretões. Assim, foram enviados ainda mais saxões e armas, formando um exército quase invencível, por conta disso, os bretões lhes deram por doação para habitarem entre eles em paz, desde que lutasse contra adversários pela paz e salvação da Bretanha. O fragmento ainda conta, que mesmo assim, chegaram outros povos germânicos como os anglos e jutos, além dos próprios saxões. E esse texto é narrado por Beda, o Venerável, ou Venerável Beda, que era um monge anglo- saxão de Monkwearmounth  - Jarrow, no norte da Inglaterra, entre o fim do século VII e VIII. O fragmento possui uma característica de crônica historiográfica, pois dá a noção exata do tempo em que sucedem os acontecimentos: “No ano 449º da Encarnação do Senhor, tendo Marciano com Valentiniano obtido o reino, o 46 º a partir de Augusto, deteve-se por sete anos.” O texto está traduzido em formato de prosa e pode ter sido escrito tanto em anglo – saxão ou em latim, já que Beda era versado em latim e traduziu algumas obras do latim para o anglo – saxão, ajudando assim a expandir em sua época, o cristianismo inglês. O que se pode inferir por meio da leitura do texto é que Beda era um monge intelectual, apesar de não ser de origem romana, era versado em latim, e tinha profundo conhecimento da formação histórica de seu povo durante o desenrolar da Idade Antiga para a Idade Média. Esse fragmento foi produzido entre o século VII e o início do século VIII, que foi o seu período de vida. Por conta desse fato, podemos saber que ele escreveu o fragmento historiográfico posterior aos acontecimentos. Parece que o objetivo ao escrever esse texto era agregar às futuras gerações um pouco de conhecimento sobre suas origens e seu passado, sobre a formação do povo inglês. Ele gostava de escrever e possuía vasta cultura, então ao longo de sua vida ele escreveu muitas obras, tanto sobre fatos históricos, como científicos e também teológicos, tornando-se importante e estudado por muitos até os dias de hoje.

São Beda, o Venerável

 Segundo o texto” o milagre régio apresenta-se sobretudo como a expressão de certo conceito de poder político supremo”. (p. 68)
A importância de se ter um soberano era que ele também era identificado como sagrado e essa identificação era comum a uma parte da Europa, especificamente à França e Inglaterra, que será objeto de estudo na obra de Marc Bloch.
Do ponto de vista religioso, o texto registra que na França e Inglaterra os reis conseguiram se tornar médicos milagrosos aos olhos do povo, porque eram vistos como enviados e ungidos de Deus, e portanto, detinham poder para curar doentes. O texto cita que Pierre de Blois disse: “ sanctus enim et christus Domini est”. (o rei é santo, é o ungido do Senhor), e se referia ao seu soberano Henrique  II, seu monarca. Assim, conseguimos entender que o homem medieval via na figura régia alguém santificado por Deus, e como nesse contexto, não podemos dissociar o religioso do político, quem fosse contrário ao seu rei, também era alguém que era visto como um sacrilégio e por assim dizer, as suas decisões eram permeadas por religiosidade.
De que forma o passado bíblico e da Antiguidade Clássica se faziam presente no medievo e qual sua importância?
O texto mostra que os povos que se originaram de invasões mantinham ao redor da realeza uma atmosfera quase religiosa de veneração e foi na Bíblia que encontraram um modelo que concedeu uma união entre o cristianismo e realeza sagrada nas idades antigas. O texto cita o capítulo 14 de Gênesis que fala sobre Abrão recebendo pão e vinho das mãos de Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. E o Antigo Testamento não era só uma fonte de simbolismos, mas apresentava um modelo de uma concreta instituição. O caráter sobrenatural era marcado pela unção. Quando o soberano ascendia ao trono, algumas partes do seu corpo eram ungidas com óleo previamente santificado.
Essa unção se concretizou primeiro na Espanha após o desaparecimento do arianismo e a Igreja e a dinastia viviam uma união íntima no século VII. Depois veio a França com Pepino, filho de Carlos Martelo, em  751, e foi o primeiro a receber a unção de sacerdotes.
Unção Régia:
Espanha(séc. VII)______Pepino, na França em 751 -------------Fim do séc. VIII, na Inglaterra. 
Ao mesmo tempo em 25 de dezembro de 800 na basílica de São Pedro, o Papa Leão III colocou uma coroa em Carlos Magno e o proclamou Imperador. Os reis haviam se tornado assim “ungidos do Senhor”.

Carlos Magno

Qual ou quais as relações convergentes e divergentes entre a figura do rei e a Igreja?
As relações convergentes são aquelas em que os soberanos monarcas haviam se tornado como “ungidos” de Deus, posto que recebiam semelhante unção a de um sacerdote.
Mas na consagração, o sacerdote era superior ao rei, já que um rei dependia da consagração eclesiástica, já o sacerdote não era ungido por reis, mas por integrantes da própria Igreja. Tanto que esse pensamento levou o rei Henrique I da Alemanha a ser o único do seu tempoa recusar a unção e a coroa que o arcebispo de Meinz lhe propôs e sem a benção de um pontífice. A  discussão acerca da unção de reis foi ficando cada vez mais acentuada entre os membros do clero. Conforme cita o texto:”... certos espíritos penetrantes depreenderam bastante bem os perigos com o que semelhante confusão entre uma dignidade essencialmente temporal e o sacerdócio podia ameaçar a Igreja e até o cristianismo.(p.79)”No século XI, todo um partido dedicou-se a comparar a dignidade régia ao sacerdócio”. Essa unção e a procura de pessoas que buiscavam no rei cura para suas enfermidades, mais comumente as escrófulas, uma espécie de inchaço nos gânglios, foi chegando a causar mal estar por parte de alguns sacerdotes, porque as pessoas, muitas vezes,  preferiam ir até o rei do que buscar a unção de um sacerdote, daí começou a  existir uma corrente que viu na unção da realeza, uma instituição que ameaçava a influência da Igreja sobre as pessoas.
Considerações gerais sobre a importância do rei no Ocidente Medieval:
Portanto, a figura régia detinha um conceito sacro para o homem medieval no Ocidente, mais especificamente aqui estudados por França e Inglaterra, assim o rei foi ganhando um conceito de santo como os pontífices. Tanto que ganharam uma unção semelhante a de um sacerdote. A população passava a vê-lo como capaz de realizar milagres. Alguns reis tocavam doentes e acreditava-se no poder de cura , e por conta disso, o rei foi ganhando papel fundamental para um país, pois era visto como sagrado e ungido de Deus até pela influência que havia na Bíblia em relação à unção de um rei. E então, ele ganhou um papel não só miraculoso, mas sagrado no Ocidente Medieval.
ener
Passaremos a análise do fragmento “A queda do Império Romano do Ocidente” que trata sobre a decadência da influência romana no ocidente e conta que quando Orestes, comandante do exército estava indo a Ravena, foi para nomear seu filho Augustulo imperador, porém foi derrotado e morto e seu filho condenado a ser exilado no Castelo Luculano, ele afirma que então o Império padeceu no Ocidente: “Assim, o Império do Ocidente do povo romano, que o primeiro dos augustos, Otaviano Augusto, tinha começado a dirigir no ano de 709 da fundação da cidade de Roma, pereceu com este Augustulo no ano de quinhentos e vinte e dois do reinado dos seus antecessores imperadores”.
O que se pode perceber desse fragmento é que foi escrito por um profundo conhecedor da história romana, e de fato Jordanes foi um funcionário e historiador do Império romano oriental, mas era de origem gótica. O que pode mais uma vez refutar a tese de que os bárbaros eram todos iletrados.  Isso é algo que Ralph Mathisen procura refutar: “Não, eu proponho discutir como os verdadeiros bárbaros que foram supostamente responsáveis pela queda do Império Romano de fato ajudaram a preservar a cultura literária clássica tradicional” (MATHISEN, p. 7)
Jordanes foi um dos bárbaros que ocuparam um papel de importância no Império de Roma Oriental, pois além de possuir muito conhecimento sobre Roma, também conhecia como era a cultura gótica, tanto que sua obra “Gética” foi a única que se sabe notadamente, que é o único registro da época sobre os godos. Ele se envolveu num conflito que na época estava dividindo a cristandade medieval: a questão da Trindade. Naquele momento, havia uma corrente que a negava, e outra – a que ele seguia- que era a de defendê-la. Tal conflito deu origem a algumas obras no período em que foi detido, Jordanes produziu um importante legado para a humanidade: Romana, obra que fala sobre Roma.
O fragmento foi escrito em prosa e até onde se sabe Jordanes era fluente em latim, então podemos inferir que no texto original, o fragmento foi escrito em latim. A Romana e a Getica descrevem fatos que não lhe são  contemporâneos, já que a queda a que ele se refere acontece por volta do século V, e ele viveu no século VI, porém como é possível observar, ele conhecia bem a história de Roma, embora godo de origem.
Sim, os romanos influenciaram todos os povos circunvizinhos, e, obviamente os povos bárbaros que viviam em meio a eles, mas os romanos também foram inevitavelmente influenciados por eles, a tal ponto em que depois de tanto tempo de contato com Roma, os bárbaros já não viam tanta diferença entre si e os romanos.
Ao que se sabe, a obra foi resultado de um pedido de um amigo, e até hoje é fonte de consulta historiográfica, seu público é vasto, porque o que sabemos dos godos vem dele.
Podemos perceber clara alusão do que foi aprendido em aula, quando falamos sobre a migração dos godos e outros povos bárbaros e sua constante interação com os romanos que ocasionou aos poucos a fusão entre culturas, fazendo dos povos bárbaros cidadãos romanizados ao longo dos séculos.
Pode-se observar que Beda especifica a questão do tempo bem à maneira de uma crônica cristã “ No ano 449º da Encarnação do Senhor...” e dá bastante detalhes, assim como Jordanes, no entanto, este último retrata de forma mais sucinta, entretanto ambos descrevem de maneira clara os eventos aos quais se referem.
Nas palavras de Mathisen, que procura desconstruir essa ideia equivocada de que bárbaros seriam meramente destruidores da cultura clássica, ele afirma: “Tal processo de assimilação das tradições intelectuais romanas continuou conforme outros bárbaros foram absorvidos no mundo romano nos séculos subsequentes. Muitos bárbaros da Antiguidade Tardia deram testemunho da imagem de bárbaro obtuso.” (MATHISEN, p.8). E ainda: “No século VI, a transição de Roma para Europa bárbara estava completa. A participação bárbara na cultura literária clássica não era mais incomum. De fato, alguém pode sugerir que ela tornou-se a norma. Os bárbaros entusiasticamente elogiavam a minima habilidade literária que eles pudessem manifestar de maneira similar como os romanos faziam.” (MATHISEN, p. 12).
Mathisen ainda afirma que culpar os bárbaros pela descontinuidade da era clássica, é como dizer que mesmo que não houvesse invasões, o império perduraria para sempre, e sabemos que isso não é verdade e ainda que os bárbaros não podem ser responsabilizados pelo declínio da civilização romana, como geralmente se lê; ele diz que declínio depende da forma de quem mede o que seria esse declínio.
“Outro problema com o modelo catástrofe para a queda do Império Ocidental tem relação com o conceito de declínio. Proponentes do modelo bárbaros como destruidores tem argumentado que há muitos tipos de declínio durante os séculos V, VI e VII que podem responsabilizar os bárbaros. Mas esse pressuposto, obviamente, depende de como alguém define declínio.”(MATHISEN, p.4).
A realidade é que os bárbaros foram absorvendo os costumes greco-romanos, eles admiravam sua cultura, e muitos passaram a se dedicar a ela, por isso e até mesmo pelos fragmentos analisados, é visível que eles também ajudaram a manter a história clássica viva na historiografia. Até mesmo na religião, foram cristianizados, e posteriormente, criaram sua doutrina acerca da fé cristã: “As famílias reais dos godos, assim  como a dos vândalos, as dos burgúndios e as de outros povos, geralmente eram adeptas do arianismo, e essa versão heterodoxa da fé cristã passou a ser vinculada à figura do rei e do seu povo.” (GEARY, p.129)
A verdade é que sempre que lemos algum tipo de fonte, devemos analisar a veracidade contida em seu conteúdo, e precisamos confrontar com outros dados, sim, o que foi descrito nos fragmentos analisados é o que houve de acordo com historiadores contemporâneos bem conceituados como Ralph Mathisen e Patrick Geary, que descrevem inúmeros detalhes em suas obras de como os bárbaros ajudaram a manter viva a cultura clássica, já que houve um momento que nem os provincianos romanos tinham orgulho de sê-lo. Segundo Patrick Geary: 
“Dessa forma, ao mesmo tempo em que as elites provincianas cultivavam uma identidade que os vinculava a tribos gaulesas havia muito desaparecidas, a massa provinciana, sentindo-se abandonada pelo império e explorada pela aristocracia, buscava novas identidades entre invasores e federados bárbaros. Nenhum dos grupos considerava a condição de romano realmente proveitosa.” (GEARY, p. 128)
Portanto, o processo de romanização dos bárbaros se deu paulatinamente, mas foi evidente que mudou o cotidiano dos bárbaros - antes pagãos, agora cristãos - em também, “novos romanos”, já que eles agora se interessavam por conteúdos literários e tudo que fosse ligado à cultura clássica. Mas foram ficando tão fortes e ligados a Roma, que é impossível não ver os bárbaros como novos romanos, mesmo que ainda cultivassem alguns costumes de suas origens, eles se misturaram, e tudo foi se configurando ao longo dos séculos para aquilo que conhecemos hoje como Europa.

Referências bibliográficas:

"Novos Bárbaros e Novos Romanos" in: GEARY, Patrick. O Mito das Nações. São Paulo: Conrad, 2005, p. 113 - 140


As raízes da historiografia moderna na antiguidade clássica.

Esta resenha se propõe a analisar os capítulos 1 e 7 do livro “Acreditavam os gregos em seus mitos?” de Paul Veyne e capítulos 2 e 5 “ As raízes clássicas da historiografia moderna” de Arnaldo Momigliano. Embora os dois livros tratem do tema historiografia e seu desenvolvimento pelos séculos, a maneira como os autores abordam é bem distinta na linguagem, ainda que a intertextualidade entre eles seja inegável.
A questão central da obra de Paul Veyne é sugestiva até mesmo para o leitor mais desatento, já no título se pode inferir sobre qual a ideia mais abordada no livro, que seria a questão do mito e das crenças durante a antiguidade clássica. Veyne esmiúça a questão do mito e verdade utilizando-se de uma linguagem literária e até de certa maneira filosófica, porque entende que a questão da verdade não é algo tão simples de ser tratado, afinal as verdades foram mudando de acordo com o contexto histórico em que as pessoas viviam.
Veyne discorre sobre a questão da necessidade que havia para a antiga população greco-romana em termos culturais de conhecer sua história. E analisa que, na antiguidade clássica, a tradição se fazia necessária para a construção da identidade e história do povo. Ele acrescenta que Tito Lívio e Dionísio de Halicarnasso foram os historiógrafos que registraram os quatro séculos obscuros da história primitiva de Roma, que ao se apropriar da cultura grega, constrói sua historiografia bebendo da fonte historiógrafa grega. Mas como os gregos contavam sua história?  No contexto da historiografia grega, os historiadores não se preocupavam se os que os precediam estavam certos, para eles se era tradição, era verdade.
A história naquele contexto era a tradição, que era autoridade para a geração posterior e não era questionada quanto à sua veracidade, nesse período a história era constituída não de fatos, mas de tradição, que era apresentada em forma de texto e contava relatos de deuses, feitos de seus heróis e conquistas de seu povo. O que se pode entender é que a tradição daquela época era uma espécie de vulgata, porque mal se distinguia naqueles textos o que de fato aconteceu, daquilo que não poderia ter acontecido, devido ao conceito de verdade estabelecido por aquele período, e esta, como hoje sabemos, é subjetiva e mutável.
Essa característica de citar uma autoridade para confirmar aquilo que se diz num texto para que ele se torne confiável não vem dos historiadores, segundo Veyne, vem de controvérsias teológicas e práticas jurídicas, nas quais eram citadas tanto as escrituras, as Pandectas, ou peças de processo. E essas citações eruditas serviam para provar que seu texto tinha fundamento e que quem estava dizendo, não o estava fazendo de forma aleatória.
Diferentemente desse costume de se provar aquilo que se fala por meio de citações, os antigos historiadores não questionavam a veracidade de suas tradições até mesmo porque seus leitores eram outros, era um público heterogêneo: uns liam por diversão, outros eram profissionais da política ou estratégia, e outros liam com olhar mais crítico. Veyne mostra que Tucídides, importante historiador que contou e vivenciou a guerra do Peloponeso, entendia que um bom historiador deve ser imparcial e não acolher cegamente todas as tradições que recebeu, para ele era necessário verificar as informações e Veyne acrescenta que Momigliano entende que foi no Baixo Império que os historiadores mudaram sua atitude diante dos documentos.
Para que se entenda como extrair o núcleo das verdades contidas nos mitos, é necessário entender que a mitologia era um gênero literário popular, geralmente oral e muito amplo do ponto de vista quantitativo de contos que havia. Veyne considera que, para entender se os gregos realmente acreditavam em seus mitos, é preciso antes de tudo, entender que crença e a verdade foram mudando no decorrer de séculos e gerações. Os valores e as concepções coletivas se transformam, por isso, seria mais adequado entender que para aquele contexto, os deuses eram verdade para a maioria, portanto, seria mais fácil explicar a história por meio dos mitos, para ter significado coletivo. Conforme Veyne cita:
“Não existe senso do real e também não é mais necessário, muito pelo contrário, que se represente o que é antigo ou estranho como análogo ao que é atual ou familiar. O mito tinha um conteúdo que se situava numa temporalidade nobre e platônica, tão estranha à experiência individual e a seus interesses quanto o teriam sido as frases ministeriais ou as teorias esotéricas ensinadas na escola e admitidas sem hesitações. Por outro lado, o mito era uma informação adquirida sobre a fé em outrem.” P.39.
Arnaldo Momigliano em sua obra “As raízes clássicas da historiografia moderna” possui uma linguagem mais clara, mais didática. Algo que se percebe nos dois livros é que eles foram feitos para historiadores, no entanto, Momigliano tem maior facilidade em atingir a compreensão daqueles que não são da área da História, porque é bem objetivo nos apontamentos históricos, tornando-os de fácil entendimento. E o que de maneira principal se pode observar é que ele pretende delinear o conteúdo histórico da era greco-romana, como nos influenciou, quais os principais pensadores para que possamos compreender como chegamos a historiografia atual.
Momigliano inicia no capítulo 2 definindo que:
“O que me parece ser tipicamente grego é a atitude crítica em relação ao registro de acontecimentos, isto é, o desenvolvimento de métodos críticos que nos permitem distinguir entre fatos e fantasias.” (Pág. 05).
E ainda acrescenta, num trecho que claramente dialoga com Veyne:
“Mas as populações de língua grega que invadiram o que chamamos de Grécia no segundo milênio a.C. não possuíam um dom natural para a crítica histórica.” (Pág. 55).    Daí podemos inferir em conjunto com o texto de Veyne, que ao longo do tempo houve a necessidade de haver fundamento para aquilo que estava sendo contado. A esse exemplo podemos retomar Tucídides já citado por Veyne que aparece novamente na obra de Momigliano quando o assunto é questionamento sobre aquilo que se ouve ou aquilo que será contado. Ele vivenciou e contou sobre a história da Guerra do Peloponeso, e a contou em oito volumes, sempre priorizando a imparcialidade diante dos fatos, e colocou que o historiador deve sempre questionar sobre aquilo que ouve.                      Hecateu, que descreveu sobre a geografia da terra e as genealogias gregas, usou de uma extensa pesquisa que realizou na Fenícia e Egito entre outras terras orientais e já contestava que os mitos gregos eram por muitas vezes insustentáveis, como demonstra Momigliano:
 “ Em palavras que ainda não perderam sua força depois de 2500 anos, ele proclamou: ‘ Eu Hecateu direi o que acredito ser a verdade; as histórias dos gregos são muitas e são ridículas’. A nova atitude em relação à tradição é clara.” (Pág. 57).
Já Heródoto possuía uma visão mais conservadora diante das tradições. Ele pensava que era necessário preservar a lembrança, e com isso, preservar a tradição para através dela encontrar a verdade que lhe era implícita.
Com essa atitude conservadora que preservava a lembrança e tradição Heródoto foi reconhecido como o pai da história. Privilegiou muito a cidade de Atenas em suas narrativas, apesar disso ele não era tido como o mais confiável dos historiadores. Até porque ele não delineava uma linha muito clara entre o que narrava e os acontecimentos que julgava verdadeiros, criando assim, certa desconfiança em relação à veracidade de seus escritos.
Tucídides, como posterior a Heródoto e por tê-lo criticado fez uma reviravolta nos estudos históricos de seu antecessor. Tucídides ficou preso por cerca de vinte anos, não tinha muita simpatia pelos atenienses até por conta estar preso e buscava razões para a guerra que viveu. Ele era contemporâneo dos sofistas, mas ao contrário deles, seus estudos se concentravam mais no âmbito político. Para ele, a época confiável para se obter informações seria o presente, sendo assim, o historiador deveria se concentrar nele, para só então através de informações confiáveis ir até o passado. Ele tinha uma visão crítica em relação à função do historiador. Raramente Tucídides citou as fontes de seus relatos, tendo em vista que ele delimitava muito bem a ordem cronológica e espaços geográficos, implicitamente notamos que ele achava ser digno de confiança do leitor, e que, por já fornecer esses dados, não era necessário citar suas fontes. “Tucídides salvou a História de tornar-se prisioneira dos cada vez mais influentes retóricos que se preocupavam mais com as palavras do que com a verdade.”(pág. 73), afirma Momigliano.
Por outro lado Momigliano entra na questão de Tácito, sendo este reafirmador da nacionalidade alemã e criticava o domínio estrangeiro da Igreja Romana. Ele entendia que da relação entre governantes e governados cada um tinha o seu lugar. E seu discurso foi bastante elogiado e usado durante a época do absolutismo. Tácito leu as acta senatus e acta diurna, que eram registros do Senado e registros do jornal de sua época. Mas por vezes, deixou a entender que, embora os consultasse para questões mais complexas ou controversas, ele não lia exatamente todos. Há, então, detalhes que ele omitiu em sua obra por desconhecer os pormenores contidos nessas leituras que ele não havia feito. Para analisarmos Tácito e captarmos seu diferencial entre os seus contemporâneos, é preciso entender a importância da crítica. Ele foi um historiador que se utilizou de meios que possuía para construir seus experimentos na escrita. E conseguimos ver que eles são complexos. Em algumas obras ele coloca os líderes numa posição inferior e em outras os coloca no topo. Para ficar mais claro, ele foi um experimentador histórico-literário que não terminou seus feitos por completo.  Contudo, Tácito se fez importante por criticar a corrupção imperial. Ele analisou as questões de natureza humana com mais profundidade, assim se destacou perante outros de sua época.
Portanto, podemos entender que as duas obras analisadas são de grande importância para a compreensão do desenvolvimento da historiografia tal como a conhecemos hoje. Para nós profissionais da História, é vital que conheçamos alguns detalhes da forma como os primeiros historiógrafos que se tem notícia pensavam e noticiavam. Passamos pela obra de Veyne para entender que, como a verdade é algo mutável, os gregos possuíam suas verdades contidas nos seus mitos, porque para eles significado havia. Percebemos também, que os historiadores antes não questionavam as tradições, apenas as reproduziam, pela confiança que havia no que era tido como tradição e que alguns pensadores, ousaram questionar o que se ouvia e procuraram analisar melhor os fatos para só então registrá-los, como foi o caso de Tucídides, assim como Hecateu que também criticou a tradição mitológica grega.  Vimos também que Heródoto procurou preservar a tradição como lembrança, mas sinalizou que era preciso encontrar a verdade dentro dela. Apontamos também para Tácito que não só noticiou feitos de seu tempo, mas analisou de forma mais abrangente a natureza humana que tendia para a corrupção, especialmente em se tratando do império, fazendo assim, uma crítica com a finalidade de desmascarar o governo imperial vigente. Assim, podemos concluir que essas obras agregam valor no sentido de despertar para as mudanças de pensamento pelas quais as sociedades e culturas passam e acrescentam também no sentido de nos mostrar sobre as formas de análise pelas quais os registros históricos passaram e nos auxiliam a ver as fontes e conteúdos de maneira mais atenta, já que é essencial uma pesquisa aprofundada diante de assuntos que, como educadores, teremos de abordar e ensinar aos alunos a entender e respeitar a diversidade cultural de cada época, para que o pensamento crítico e reflexivo seja estimulado.

Referências:

MOMIGLIANO, Arnaldo. As Raízes Clássicas da Historiografia Moderna.
Bauru: EDUSC, 2004.

VEYNE, Paul. Acreditavam os deuses em seus mitos?. Editora Brasiliense. 1984


Colômbia: guerrilha, narcotráfico e paz.

 

Com a crise cafeeira no início do século XX, os liberais acusaram os conservadores de se manter no poder na Colômbia por meio de eleições fraudulentas e de centralizar o poder em demasia.
Em 1930, após cinco décadas de domínio conservador, os liberais vencem as eleições, 3 anos mais tarde um liberal radical chamado Jorge Eliécer Gaitán funda a União Nacional da Esquerda Revolucionária ficando no poder até 1946 com a situação política radicalizada, após o retorno dos conservadores ao poder ele seria novamente o candidato liberal à presidência.
No dia 8 de abril de 1948, o 9º Congresso Pan Americano, com presença do americano George Marshall alegando de que o objetivo de sua participação era estabelecer alianças, quando na realidade ele estava ali para consolidar a influência americana na região da América do Sul. A conferência foi o pano de fundo da morte de Gaitán, assassinado justamente no dia em que encontraria Fidel Castro, com sua morte explodiu novamente a rivalidade entre liberais e conservadores.


Jorge Eliécer Gaitán


“La Violência” teve início em Bogotá, com o chamado Bogotazo, uma revolta política que se iniciou na capital colombiana e se espalhou pelas províncias do interior, houve saques a comércios estrangeiros e prédios públicos. Os movimentos radicais foram coordenados pelo reitor da Universidade Nacional, Geraldo Molina. Essa nova ordem revolucionária respaldada por milícias teve o apoio da polícia ao lado do povo gaitanista, houve apropriação de terras e da usina de petróleo de Barrancabermeja. A revolta terminou quando as juntas, necessitadas de mais apoio e coesão, acabaram sendo derrotadas.
Os liberais, temerosos quanto a uma vingança conservadora, mobilizaram os camponeses em milícias cometendo assassinatos, a meta das guerrilhas liberais comunistas era derrubar o governo conservador. Na frente da guerrilha havia membros do PSD (Partido Social Democrata), dentre eles Tirofijo, futuro líder das Farc.
A contrarrevolução conservadora foi cruel e sanguinária, com destaque para os “Chulavistas”, que enxergavam a situação como uma Guerra Santa contra comunistas e maçons, houve a substituição da polícia liberal pela cruel polícia conservadora, em consequência disso houve a repressão indiscriminada com os “Trabajitos” realizados por “Los Pássaros” ,um grupo de assassinos católicos fanáticos e pistoleiros comerciantes locais, liderados por León María Lozano, popularmente conhecido como “El Condor”. Diversas atrocidades foram cometidas como o corte de línguas e olhos, além de matar gestantes para que não nascessem membros opositores.

León María Lozano


Laureano Gómez foi eleito presidente em 1950, mas renunciou devido a problemas de saúde, quando tentou voltar ao cargo em 1953 foi derrotado por um golpe de Estado, onde o General Rojas Pinilla tomou o poder.
Gustavo Rojas Pinilla acabou com seus opositores e simulou ações populistas para o consumo urbano, construiu bases clientelistas, moldando inclusive os sindicatos nessa base. Com seu discurso anti-oligárquico e nacionalista associado ao presidente argentino Perón, Pinilla conseguiu enfurecer a elite oligárquica.

Gustavo Rojas Pinilla


Contrastando essas ações, Pinilla participou de massacres como comandante conservador, quando presidente, acumulou fortuna de forma nebulosa, além de libertar León María Lozano. Numa tentativa de erradicar definitivamente os redutos comunistas que ainda restavam, desencadeou, em 1955, a “Guerra de Villarica”, utilizando os veteranos da Guerra da Coréia ordenou bombardeios com aviões doados pelos Estados Unidos. Com isso muitos camponeses foram desalojados, enquanto outros se refugiaram nas montanhas, criando colônias agrícolas, líderes sindicais e camponeses se converteram em líderes militares, estabelecendo um novo padrão de luta que se desenvolveria ainda mais nas próximas décadas. Com o tempo, além dos partidos políticos, industriais e cafeicultores e a Igreja desejavam a queda de Pinilla.
Na Espanha, Gómez assinou o Pacto de Sitges juntamente com Alberto Lleras Camargo, comprometendo formalmente conservadores e liberais em uma Frente Nacional em que o poder seria compartilhado pelos 2 partidos se alternando no poder, concordando com a repressão as guerrilhas em todos os níveis governamentais. Tiveram apoio da igreja, que abandonou a filiação única aos conservadores, unificando assim as duas formações, também foram apoiados pelas elites políticas e burguesia.
Devido à forte pressão Pinilla renunciou e um plebiscito incorporou os acordos da Frente Nacional à constituição, Laureano Gómez retorna de forma triunfal para assumir o senado e processar o General Pinilla. A Frente Nacional restaurou o sistema bipartidário, sendo unificados pelo anti–comunismo, em um contexto de Guerra Fria, em contra partida embora tivessem o poder central, na maior parte do país ainda prevalecia o poder local.

Pacto de Sitges


Durante o período movimentos populares foram criminalizados e os conservadores começam a patrocinar assassinatos através do “Banditismo”.
Surgem forças de oposição à democracia oligárquica e excludente da Frente Nacional, uma delas é o MRL(Partido Revolucionário Liberal), comandado por Afonso Lopez Pumarejo, atraíram intelectuais marxistas, escritores radicais, trabalhadores do setor público, estudantes e camponeses.
Com o impacto da Revolução Cubana se torna urgente a eliminação de guerrilhas, coo parte da Guerra Fria. O “Plan Plazo” concebido por civis brancos contra os comunistas isolaria as guerrilhas da sua principal base de apoio por meio de melhores infraestruturas, já a “Operacão Marquetalia” teve o objetivo de recuperar uma aldeia de mesmo nome, apoiados pelos americanos, houve bombardeios devastando tudo e obrigando os combatentes a formar uma coluna guerrilheira, deixando se ser uma milícia sedentária para ser uma milícia móvel.
 As Farc é formada em 1966 por Tirofijo e nos anos 1960-70 se converteram no braço armado de um movimento camponês colonizador da fronteira agrícola de Meta e Caquetá obtendo cenário para a construção do verdadeiro poder local, uma estrutura regional de guerra social e sobrevivência coletiva, garantindo a continuidade de lutas agrárias do passado, tiveram bastante sucesso em seu início. Outras forças guerrilheiras que tiveram destaque nesse período são a ELN, uma força guerrilheira formada por universitários, com destaque para os irmãos Fabio e Manuel Vasquez, ligados a Cuba, eram constituídos de pequenas guerrilhas móveis. Em 1967 é formado o EPL de via maioista, pregando o radicalismo agrário e uma guerra popular prolongada.

Tirofijo 


A Frente Nacional se deteriorou nos anos 1960, principalmente, devido a guerrilhas e uma alta taxa de desemprego. Na eleição de 1970 Rojas Pinilla ganhou a eleição com 39% dos votos, a Frente Nacional alegou fraude e impôs Misael Pastrana, que teve seu mandato marcado por obras públicas e uma contrarreforma no campo, combatendo com violência os camponeses e líderes de esquerda, era apoiado por latifundiários avessos a reforma agrária. O último mandato da Frente Nacional foi com Lopez Michelsen (1974-78), governando para uma elite cafeeira e industrial que concentrava 5% da população e mais da metade da renda nacional, enquanto a camada mais pobre da população formada por afro-colombianos e indígenas sofriam com pouco investimento. Diante das medidas neoliberais de Michelsen, empresários das drogas começaram a lavar dinheiro no Banco de La Republica, tirando proveito da política monetária de baixas taxas de juros que estimulavam empresas de seguros, hipotecárias e a especulação de imóveis urbanos. É nesse contexto que surge outro grupo revolucionário, o M-19, roubando a espada de Simón Bolivar de um museu no centro de Bogotá; esse grupo tinha ambições eleitorais de tradição gaitanista.
Em 1978 foi eleito o liberal Julio Turbay Ayala, que escolhe o General Camacho para dirigir o assalto às cidades por parte do exército, da polícia, dos serviços de inteligência e organizações paramilitares. Em consequência disso começam a aparecer detidos, torturados e milhares de desaparecidos. Um dos focos da repressão de Camacho foi o M-19, o clima ficou propenso para o crescimento de mais guerrilhas.

Julio Turbay Ayala


Um processo de reestruturação das oligarquias é iniciado e algumas facções importantes transferiram seus investimentos da produção para a especulação e capitalização de renda. O mercado do negócio da maconha floresceu, os bancos e negócios da área da construção aumentou e surgiu uma nova camada de capitalistas ricos devido aos narcóticos e a economia de guerra, encolhendo a classe conservadora. Num curto espaço de tempo a cocaína substituiu a maconha como mercadoria mais rentável para a exportação e os narcotraficantes entraram para a política. Logo o Partido Liberal se estimulou com o mercado das drogas e o Partido Conservador desapareceu completamente, assim como a indústria do café.
No início dos anos 1980, a estratégia das FARC se espalhar por todo território nacional, alimentando – se do mercado de cocaína eles se converteram num empreendimento militar dedicado a expansão territorial, controle da população e a mobilização dos civis dentro de sua zona de operação. Em resposta são criados esquadrões da morte, forças paramilitares locais, havendo violência no âmbito político e criminal.
Os colombianos detinham o monopólio da cocaína, seu transporte e processamento tinham seu eixo central em Medellin. O chefe era Pablo Escobar, que, diante do crescente poder de sua organização, em 1982, se integrou a política nacional através do partido Liberal, se elegendo deputado suplente, sob a tutela do chefe político Alberto Santofimio. Essa aliança ocorreu após a expulsão de Escobar do Novo Liberalismo, fundado por Luís Carlos Gallán e Rodrigo Lara Bonilla, políticos da nova geração que se opunham aos narcotraficantes e disputavam na política com Santofimio. Foi esse contexto que o documentário “Pecados de Mi Padre” de 2009, tentou reproduzir. Com a anuência de seu filho Juan Pablo, que posteriormente alterou seu nome para Sebastián Marroquín, juntamente com a viúva de Pablo, Maria Isabel Santos, através das lembranças de fotos e vídeos vão lembrando essa realidade milionária que Pablo Escobar teve como chefe do cartel de Medellín. Ele já no começo dos anos 80 era um dos homens mais ricos do mundo, ele não sabia nem no que gastar mais, ele também lavou dinheiro construindo casas para pessoas que viviam num aterro sanitário, além de centenas de estádios de futebol que entregava. Então quando seus antigos companheiros de partido político começaram a ser uma ameaça para ele, ele exterminou os dois: Rodrigo Lara Bonilla foi o primeiro a ser assassinado numa emboscada – ele foi o primeiro a denunciá-lo perante o parlamento colombiano – depois disso, Pablo tinha ainda muito dinheiro, mas sua imagem já estava manchada. Depois foi a vez de o candidato a presidente ser assassinado enquanto estava sobre um palanque, Luís Carlos Gallán. Seu filho, com apenas 17 anos, decidiu se pronunciar sobre a morte do pai e indicou César Gaviria para ser o próximo candidato, Pablo tenta armar uma emboscada para matá-lo, mas o avião em que colocara a bomba, não estava com ele, e em julho de 1990, foi eleito presidente da Colombia César Gaviria. Nesse meio tempo havia constantes embates entre os cartéis de Medellín e o de Cali, o que transformou a Colômbia num local que cheirava a sangue. 

Pablo Escobar

Olhando para trás e em tudo o que lhe acontecera até ali, Sebastian decidiu colocar um basta nisso tudo e escreveu uma carta aos filhos das vítimas de seu pai para lhes pedir perdão e para que ele tentasse fazer com que dali em diante, não houvesse mais vinganças, nem mortes. Sebastián se encontrou com os filhos de Luís Carlos Gallán e Rodrigo Lara Bonilla, na Argentina, país que atualmente reside com sua mãe e esposa. Ele enfatiza que abriu mão de toda a fortuna que seu pai tinha por sua vida. Deixou tudo para trás e provou que no mundo do narcotráfico tudo é efêmero e a Colômbia apesar de ter morrido Escobar em dezembro de 1993, precisou de vários anos para tentar se acertar com as FARC, num longo processo em que os rebeldes entregaram seus armamentos e se tornaram partido político, antes Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, hoje Força Alternativa Revolucionária do Comum. Atualmente o Exército de Libertação Nacional, outra guerrilha armada colombiana, também tem dado tréguas ao país, a Colômbia tentou por anos esse acordo de paz, parece que agora estão chegando a um denominador comum e todos só tendem a ganhar.

Referencias bibliográficas:

HILTON, Forrest. A Revolução colombiana. Unesp. 2010

ENTEL, Nicolas. Pecados do meu pai. 2010

Produção historiográfica no período da Guerra fria


O discurso que o premier britânico, Winston Churchill, pronunciou nos Estados Unidos em 1946 ao esboçar um brado de alerta, sob seu ponto de vista, ao iminente perigo soviético ao mundo ocidental com objetivo de despertar a atenção do governo estadunidense a respeito da ameaça vinda de Moscou pode ser interpretado por nós como o início das hostilidades mútuas entre os principais vencedores da Segunda Guerra (EUA, Reino Unido e URSS) cujo conflito Geopolítico é conhecido por Guerra Fria na qual o bloco aliado dos EUA, os países que foram contemplados pelo Plano Marshall, protagonizariam uma rivalidade de 40 anos com o bloco soviético, sendo essa aliança composta pela União Soviética juntamente com os países do Leste Europeu que foram ocupados pelo Exército Vermelho durante a guerra que derrubou regimes colaboracionistas/satélites da até então do regime Nacional-Socialista alemão e instalou regimes favoráveis ao regime soviético, por meio de eleições pluripartidárias e de manobras políticas como golpes, p.ex..
É evidente que ao denunciar a ameaça que a URSS representava as democracias liberais, claro que de maneira vaga sem explicitar quais as ações que os soviéticos tomariam conforme detectado por J.P. Morray (1961 apud MARQUES, BERUTTI; FARIA 2003, p.13), afinal nem mesmo sabia de fato o que pretendiam fazer contra a Europa Ocidental e tampouco conseguir apontar com infalibilidade o movimento político internacionalista vermelho na nova Europa, o chefe de governo britânico negligencia sua colaboração pouco recente com o expansionismo de Kremlin nas terras húngaras, polonesas, romenas, etc. por meio de acordos de partilhas de territórios com finalidade de reordenar o cenário geopolítico do velho continente pós Hitler.
Um desses arranjos territoriais que o Churchill fez questão de omitir diante do passeio realizado na antiga colônia inglesa que já mostrava a todos que substituiria o papel de potência mundial da sua antiga metrópole foi a Conferência de Yalta, realizada no início de 1945 que consolidou a hegemonia pós-guerra da URSS nas antigas pátrias que estavam em domínio de Berlim, direta ou indiretamente, o que fez questão do omitir dos seus ouvintes durante o pronunciamento com quem se reuniu há um ano e quais os objetivos foram firmados e cumpridos conforme a própria Declaração de Yalta:
O “Premier” da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o primeiro-ministro do Reino Unido e o Presidente dos Estados Unidos da América realizaram consultas entre si no interesse comum dos povos de seus países e da Europa libertada. [...] (DECLARAÇÃO..., 1945, apud MORRAY, 1961 apud MARQUES; BERUTTI; FARIA, 2003. p.11, grifo nosso).
Cujos interesses conforme cita Morray (1961 apud MARQUES; BERUTTI; FARIA, 2003, p.11) seriam o restabelecimento da ordem na Europa e a reconstrução da vida econômica nacional fossem realizados por processos que premissem aos povos libertados destruir os últimos vestígios do nazi fascismo, e portanto construir as instituições democráticas que melhor que contemplassem as forças anticolaboracionistas.
Winston Churchill 
Apagando o passado recente de colaborador do “camarada” Stalin na construção de uma nova ordem europeia Churchill cria o termo “Cortina de Ferro” para designar uma barreira protetora do expansionismo soviético visando isolar a URSS dos seus simpatizantes e militantes do restante do Continente, e por assim criando um alarde que abordamos anteriormente.
Em setembro de 1949 Após a URSS realizar o seu teste nuclear, onde os EUA batizaram a bomba de Joe One em alusão a Joseph Stalin, o bloco Ocidental do mundo ficou atônito pela perda da hegemonia estadunidense da bomba nuclear. Começou em solo norte americano a caça as bruxas de possíveis “inimigos” internos sobre vazamento de informações nacionais referentes à bomba e outros assuntos, mas mais do que isso, enfatiza o poder das duas superpotências URSS e EUA em cima dos dois blocos ideológicos, capitalista e comunista, uma vez que somente as duas são detentoras de armas nucleares, onde o mundo passa a dançar a música que esses dois países tocam, cada uma em sua área de influência.
Harry Thruman
Em março de 1947 o presidente dos EUA Harry Truman realiza um discurso contra a influência comunista no bloco ocidental, que estava sobre domínio dos Estados Unidos. Em suas palavras o líder político usa a vitória de guerrilhas comunistas na Turquia e na Grécia. Ele acusa estas lutas armadas como ditaduras impostas por uma minoria contra o seu povo e influenciadas pela União Soviética, defendendo a hegemonia política destes países, incluindo ajuda financeira e econômica á eles se baseando na carta das Nações Unidas. Truman sempre usa a liberdade como argumento para defender o seu posicionamento:
 Os Estados Unidos, ao ajudar nações livres e independentes a defenderem a sua liberdade, estarão concretizando os princípios da carta das Nações Unidas... As sementes dos regimes totalitários são alimentadas pela miséria e pela necessidade. Elas brotam e se desenvolvem no solo daninho da pobreza e da discórdia. E alcançam seu pleno vigor quando a esperança de um povo por uma vida melhor já morreu.( TRUMAN, 1947 apud MORRIS, 1964 apud MARQUES; BERUTI; FARIA, 2003. p.20).
Este fato ficou conhecido como a Doutrina Truman, mas não ficaria somente por isso, em setembro do mesmo ano Andrei Zdanov um político da URSS próximo de Stalin, fez um discurso defendendo o lado soviético conhecido como a Doutrina Zdanov, que se aproxima das palavras de Truman e as complementa.
Stálin e Zdanov
Zdanov usa em seu discurso o caráter imperialista dos Estados Unidos sobre a sua influência no Ocidente, e põe os adeptos do Partido Comunista nos países sobre influência norte- americana como combatentes, adjetivando eles como antiimperialistas e antifascitas, isto conota a aproximação com o discurso de Truman que defende a liberdade contra as ditaduras opressoras que sufocam o povo sobre influência soviética. Os discursos se complementam a medida que Zdanov afirma:
 “Uma tarefa particular incumbe aos partidos comunistas irmãos da França, da Itália e de outros países. Eles devem tomar em suas mãos a bandeira da defesa nacional e da soberania de seus próprios países.” (ZDANOV, 1947 apud MARQUES; BERUTI; FARIA, 2003. p.21).
Ambos os discursos defendem os seus interesses. Os Estados Unidos defendia uma interferência externa em países que eram influenciados por Partidos Comunistas em sua região de domínio como citado no discurso de Truman, a Grécia e Turquia, a contra ponto a URSS defendia a interferência interna pelos Comunistas nos países também de influência capitalista quando foi citada a França e a Itália por Zdanov.
Em abril de 1949 é criado O Tratado do Atlântico Norte (OTAN) pelos Estados Unidos, sua composição havia os países aliados sobre sua influência, o que chama atenção neste tratado é o artigo 5°.
As partes estão de acordo em que um ataque armado contra uma ou mais delas na Europa ou na América do Norte deve ser considerado uma agressão contra todas, e consequentemente concordam que, se tal agressão ocorrer, cada uma delas, no exercício do direito individual ou autodefesa coletiva reconhecida pelo artigo 51 da Carta das Nações Unidas, auxiliará a parte ou as partes assim agredidas agindo de modo imediato, individualmente e em ajuste com as outras partes, como lhe pareça necessário, incluindo o uso da força armada, para restaurar e defender a segurança da área do Atlântico Norte. (MORRIS, 1964 apud MARQUES; BERUTI; FARIA, 2003. p.22 e 23)
Em maio de 1955 a União Soviética também cria um acordo com seus países aliados chamado Pacto de Varsóvia, e o seu artigo 4° é semelhante ao artigo 5° da OTAN:
No caso de agressão aramada na Europa contra um ou vários dos Estados signatários do Tratado, por parte de um Estado qualquer ou por parte de um grupo de Estados, cada Estado signatário do Tratado, exercendo seus direitos de autodefesa individual ou coletiva, conforme o artigo 51 da Carta da Organização das Nações Unidas, concederá ao Estado ou aos Estados, vítimas de tal agressão, uma assistência imediata, individualmente ou em entendimento com os outros Estados signatários do Tratado. [...] (Tratado de Varsóvia, 1955 apud QUEIRÓS, 1977 apud MARQUES; BERUTI; FARIA, 2003. p.27 e 28).
Estes tratados acirraram as tensões entre as duas superpotências, conforme é analisado nos dois artigos de ambos os documentos, em caso de agressão militar de uma nação aliada do acordo por parte de outro país do outro bloco, a URSS ou os EUA poderiam entrar em guerra, além do agravante de ambos possuírem armas nucleares (setembro de 1949, Joe One – União Soviética), estava assim aquecendo uma eminente 3º Guerra Mundial durante a Guerra Fria.
Pode se dizer que a construção do muro de Berlim anulou o propalado projeto de convivência pacífica evidenciado por Nikita Kruschev em 1956, nele o líder soviético prega uma conciliação com os americanos dizendo que a uma guerra, com a tecnologia e poder bélico de então, seria devastadora e usa uma metáfora da boa vizinhança para justificar seus argumentos, dizendo que vizinhos tem de encontrar maneiras de conviver juntos, sendo que o discurso diz precisamente o seguinte:
Pode ser que nosso vizinho vos seja simpático, ou não. Não tendes a obrigação de ser amigos ou visitá-lo. Porém viveis lado a lado, e que fazer se nem vós nem ele se dispõem deixar o lugar a que estão habituados, para se fixar em outra cidade? Com muito maior razão, o mesmo ocorre nas relações entre Estados. Ha apenas duas possibilidades: ou a guerra, e deve-se dizer que a guerra, no século dos mísseis e da bomba de hidrogênio, é plena das graves consequências para todos os povos, ou a coexistência pacífica. Quer vosso vizinho vos agrade ou não, não há outra coisa a fazer senão encontrar terreno de entendimento com ele, pois nós temos um só planeta. (KRUSCHEV, 1956 apud DELMAS, 1979 apud MARQUES; BERUTI; FARIA, 2003. p.29).
Nikita Kruschev
Essa “política da boa vizinhança” caiu por terra com a construção do muro de Berlim, em 1961, em que Kruschev restringiu o fluxo de habitantes do lado comunista para o lado ocidental da cidade. Os habitantes estavam indo em grande quantidade para o lado capitalista, esse êxodo estava ocorrendo devido aos melhores salários oferecidos, profissionais de várias áreas se debandavam para o lado ocidental, deixando o lado oriental carente de pessoas do mesmo gabarito. Sendo assim, na noite do dia 13 de agosto de 1961, soldados soviéticos e alemães orientais, auxiliados por milícias operárias começaram a erguer com arames farpados cercas ao longo da fronteira com Berlim ocidental. A atitude hostil dos comunistas fechando o limite entre as duas zonas de influências irritou profundamente os norte-americanos, que consideraram essa atitude uma violação aos acordos assinados anteriormente, e prometeram que tal ação seria repelida.
O muro de Berlim é considerado o símbolo máximo da Guerra Fria, pois foi construído com o único propósito de separar as duas zonas de domínio, do lado oriental ficariam os comunistas liderados/influenciados pela URSS e do lado oriental os capitalistas liderados/influenciados pelos Estados Unidos da América.
Uma revista de grande tiragem a nível mundial, a revista Seleções Reader’s Digest tornou-se um grande instrumento de propaganda americano, tendo publicano em sua edição de outubro de 1962 uma entrevista com o presidente Kennedy, nela ele afirmou:
Até 1954, era-nos inteiramente favorável o balanço do poderio aéreo e das armas nucleares – continuou. – A situação começou a mudar por volta de 1958 ou 1959, com os mísseis balísticos. É preciso compreender agora que ambos os lados possuem essas armas devastadoras. É claro que, em determinadas circunstâncias, devemos estar prontos a empregar de saída as armas nucleares; por exemplo, no caso de um ataque inequívoco à Europa Ocidental. Mas o importante, o necessário, é controle, flexibilidade, poder e escolha. (ASLOP. In: SELEÇÕES READER’S DIGEST, 1962 apud MARQUES; BERUTI; FARIA, 2003. p.31).
John Kennedy
A estratégia de Kruschev pretendia a vitória mundial do comunismo sem uma guerra nuclear, mas para que isso fosse possível teria de aumentar ainda mais o poder militar soviético, a guerra que ele pretendia era outra, através de lutas limitadas por guerrilhas, as chamadas guerras de libertação nacional. Por meio dessas guerrilhas as regiões subdesenvolvidas produtoras de matérias primas do mundo cairão sobre o domínio comunista, isolando países da OTAN e produzindo assim a vitória do comunismo. O sistema dele falhou na Grécia e Filipinas, mas teve êxito na China e em Cuba, isso quer dizer que ele não é desprovido de inteligência.
Já na estratégia de Kennedy, o objetivo era deixar líder soviético na dúvida, com incerteza, se usariam suas armas nucleares ou não, antes ou num contragolpe avassalador no caso de ataque inimigo, mesmo que convicto que a América nunca usaria suas armas primeiro que Kremlin.
Ambas as estratégias não pretendiam uma guerra nuclear direta, apesar de aumentarem ser poderio bélico para intimidar o regime rival, a diferença em que a estratégia de Kennedy se opunha a Kruschev era o fato de que o segundo apoiava guerrilhas socialistas nos países subdesenvolvidos que produzem matéria prima para enfraquecer o capitalismo e tomar o poder financeiro dos capitalistas, assim derrotando-os.
O início da Guerra Fria na América Latina foi bastante impactante dentro do cenário político dos principais países, sendo estes importantíssimos por sua localização geográfica, pelos recursos naturais e pela sua potencialidade econômica, na qual se viram atados a doutrina geopolítica dos Estados Unidos e, portanto submissos a sua visão política, econômica e social.
Fidel Castro 
Enquanto Cuba nos anos 60 buscava apoio da União Soviética para se manter diante da postura hostil estadunidense no processo de consolidação da Revolução Cubana, o restante do continente desde pós guerra precisamente na década de 1950 estava em processo de inserção no mundo Capitalista encabeçado pelos EUA em que se valia da colaboração das elites nacionais (de caráter internacionalista) para manter sua hegemonia as custas do sofrimento material e moral dos latino americanos.
Esse panorama de dominação e opressão exercido pelo Washington e seus senhores de Wall Street por meio das elites locais criaram um ambiente de insatisfação popular prontamente canalizada por líderes políticos e governantes de orientação nacionalista, sendo estes ou radicais ou moderados (pragmáticos), na qual passaram a representar uma grave ameaça aos interesses das classes subservientes aos EUA e ao próprio poder norte-americano.
Para evitar novos processos de alternativas da hegemonia e de equilíbrio nas relações entre a Casa Branca e os governos nacionais (que manifestaram o objetivo de autonomia e a de exercerem a idealizada soberania nacional) os EUA arquitetaram intervenções e apoiaram os golpes militares e as instabilidades contra regimes que lhes confrontavam/contrariavam.
Não obstante da queda de Arbenz, na Guatemala, e no trágico desfecho da Crise do Governo Brasileiro que culminou no suicídio do presidente Getúlio Vargas ambas ocorridas em 1954, as elites culturais movidas pelo alerta desencadeado pelo Churchill em 1946 convocam em 1955 na cidade de Rio de Janeiro, no nosso país, o “II Congresso contra a intervenção soviética na América Latina” que foi realizado pela organização Cruzada Brasileira Anticomunista.
Seguindo o exemplo do congresso do ano anterior ocorrido na Cidade do México os organizadores tinham o objetivo de colher os frutos, ou seja, obterem os mesmos êxitos que foram o fim de regimes citados acima e o compromisso de inquebrável voto de lealdade aos objetivos centrais da reunião por parte do presidente mexicano, do partido governista e de outras lideranças de movimentos sociais mexicanos (CRUZADA BRASILEIRA ANTICOMUNISTA: Relatório do Segundo Congresso contra a intervenção soviética na América Latina, s.d. apud MARQUES, BERUTTI; FARIA 2003. p.37-38).
Para que lograssem esses objetivos a convocação denunciava, sob o ponto de vista deles, a expansão soviética ou “perigo vermelho” nos países signatários do congresso propagando os ideais comunistas por meio de militantes entusiastas causando instabilidade e lutas de classes elevando as tensões políticas ameaçando assim a ordem e o desenvolvimento destas pátrias, inclusive associando métodos de ação dos socialistas na URSS com a Inquisição Medieval, uma contradição enorme já que em nome de valores cristãos (principalmente da Igreja Católica Romana) denigre uma das principais instituições que existiu no mundo católico, mencionando também a acusação implícita de que o ex-presidente Getúlio Vargas antes de seu desfecho horrendo apoiou e deu suporte a “marcha bolchevista” mesmo depois da repressão ao movimento revolucionário do Partido Comunista (PCB) e da ala do exército durante o seu governo nos anos 30, onde passa a valer tudo pela luta contra o Comunismo.
Sendo assim a propaganda Pan Latino-americana visava unir todos os países de origem latina em torno da luta Anticomunista seguindo o exemplo da Cortina de Ferro que tinha o dever de proteger o continente.
A proteção não seria simplesmente com ações diplomáticas hostis, mas principalmente por ações de propagandas internas precavendo os compatriotas das ditas “Quintas Colunas”, ou seja, agitadores e agentes pró Moscou, já que para os organizadores a ameaça se fazia internamente diante da impossibilidade da invasão militar da URSS no período de curto a médio prazo, além de buscar soluções (embora que fossem vagas) que remediassem as injustiças sociais e garantissem a estabilidade nacional.

Se na década de 50 foram articulados movimentos com finalidade de barrar o avanço comunista na América Latina, nos EUA anos 60 a atmosfera seria semelhante como podemos perceber nas palavras do missionário-médico Walter H. Judd:
[...] Na opinião deles [dos Comunistas], qualquer mentira, qualquer crime não é apenas desculpável, mas chega a ser positivamente virtuoso desde que faça avançar a causa do comunismo mundial. Para eles, a violação de tratados e acordos não representa uma traição à fé jurada, mas uma afirmação eloquente e perfeitamente coerente da mesma [...]. (SELEÇÕES DO READER ’S DIGEST, abr. 1966 apud MARQUES, BERUTTI; FARIA 2003. p.35).
O que nos soa estranho por se tratar de esforços de coexistência pacífica entre o Bloco Capitalista e o Bloco Socialista em que o ex- secretário geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Nikita Kruschev demonstra boa vontade em dialogar com as liberais democracias com intuito de estabelecer pontes entre Moscou e o restante do mundo, incluindo os norte-americanos, ainda mais os traumas após os anos de caça as bruxas, como o caso do Macarthismo (em alusão ao senador republicano, na época, Joseph McCarthy) que resultou em perseguições aos notáveis ligados aos movimentos de esquerda ou aos simpatizantes da ideologia durante os anos 50.

Parece que ficou na memória do Walter Judd os feitos de McCarthy, o que faz continuar militar na oposição implacável as ideias da extrema-esquerda mesmo se contradizendo afirmando que os comunistas permitam iniciativas pessoais sendo que simultaneamente se opõem a ações individuais, e quando afirma que os Socialistas defendem a partilha dos bens nacionais de maneira espontânea para em seguida afirmar que impõem medidas coercitivas. (JUDD, WALTER. In: SELEÇÕES DO READER ’S DIGEST abr. 1966. Paginação Irregular apud MARQUES, BERUTTI; FARIA, 2003. p.34-35).
Mesmo que se esforce em distinguir a teoria em relação à prática do Sistema Socialista e Comunista, Judd não elucida essa diferencia o que leva os mais leigos a definir falsas premissas ou nem sequer conseguir fazer isso em razão da confusão que provoca com essas contradições de termos e definições de ambos os sistemas.
Não estamos afirmando que tudo o que afirmou está errado, pois tem enorme razão ao evidenciar que de fato havia um abismo econômico e social entre os dois mundos na qual o mundo ocidental desfrutava durante o período da Era de Ouro os altos índices de indicadores de bem estar social e grande poder de compra algo bem menos perceptível no mundo Marxista-Leninista, sendo em alguns lugares vidas penosas em meio à fome e a escassez, sem esquecer-se de levantar a questão de controle de locomoção dos habitantes visando evitar a emigração para o bloco do Estado de Bem Estar Social regional.
Mas demonizar o mundo não Capitalista ignorando as contradições deste mesmo sistema na qual em seu seio tem tido cidadãos que sentem atração pelo Socialismo/Comunismo mostra que a maior preocupação não é reformar por completo o sistema, e sim camuflar os problemas do mundo ocidental através de alardes aos erros da ideologia vermelha.
O podemos perceber em relação ao discurso do Winston Churchill e dos dois discursos, um do congresso Anticomunista e outro das objeções de Judd é que por mais que sejam legítimas as críticas ao sistema político, econômico, social e filosófico do Socialismo/Comunismo e que é obrigação dos cidadãos, sejam estes escritores, conferencistas, organizadores de congressos, ativistas e políticos notáveis, denunciar ideias que ameaçam a cultura nacional ou regional, ou que coloca em risco a humanidade, porém o que vimos foi um jogo de palavras, de frases de efeitos, de repetições de termos negativos como “perigo vermelho”, “Quintas- Colunas”, “bolchevistas”, de termos positivos como “mundo livre”, “incentivo pessoal” que servem para manipular as pessoas fazendo da questão das ideologias vermelhas uma seção de retóricas vazias obrigando elas optar pelo mal menor, no caso o Capitalismo, para evitar uma tragédia maior, não que o Anticomunismo seja errado ou ruim, mas que se combata com conhecimento e racionalidade com devida análise, estudo e observação, ao contrário das propagandas irracionais que apontamos que teve o único objetivo de salvaguardar os interesses das elites nacionais e internacionais sob a desculpa de garantir a proteção das liberdades no mundo Capitalista.



Fonte e Referência:
 BERUTI, Flávio Costa; FARIA, Ricardo de Moura; MARQUES, Adhemar Martins. História do Tempo Presente. 1. ed. São Paulo: editora contexto, 2003.











Professor Fabio Cardoso: A Família Monárquica Brasileira ( Versão original)...

Professor Fabio Cardoso: A Família Monárquica Brasileira ( Versão original)... : A Família Monárquica Brasileira Fabio Cardoso Pinto¹ ...